ELAS MERECEM MAIS DE NÓS

 

 Às quartas, na casa 6 do HUCAM, o corredor é feminino (peço licença aos 10% XY, mas elas tomam conta da situação). É o dia do ambulatório de lúpus: dia de recepção cheia e falante, como esperado quando existe qualquer reunião de mulheres em um pequeno espaço e com muito assunto em comum. Mulheres de todos os tipos, idades e classes sociais e com as mais variadas histórias pra contar esperam ali ansiosas pela consulta médica enquanto trocam receitas caseiras para o cabelo crescer, indicações de filtro solar e chás milagrosos que, elas juram, fazem o lúpus melhorar.

No momento do bom dia, o ”olho clínico” já percebe qual vai ser o ritmo de trabalho. Já conseguimos saber quem está entristecida, quem está com as bochechas rosadas pelo rash, quem está com o rosto redondo de corticoide e quem já não precisa do lenço (porque o cabelo já cresceu). Quando vejo Bruna sem batom, por exemplo, já sei que as notícias não são boas. É preciso tempo e atenção para reconhecer os sinais: começa aqui nossa responsabilidade.

Para tratar lúpus, modéstia à parte, é preciso ser bom médico. Já começa difícil no diagnóstico, geralmente tardio e algumas vezes equivocado, e permanece complicado durante o longo tratamento.  Corticóides, imunossupressores, pulsoterapia, infecções, anticoncepção, ganho de peso, osteoporose secundária, alopecia, depressão e ansiedade são rotina. E sabendo que é uma doença que pode virtualmente comprometer qualquer órgão ou sistema, nossa responsabilidade só aumenta.  Antes fosse só a responsabilidade, também precisamos fazer mágica com o relógio. Com o tempo de uma consulta, é preciso ouvir, examinar, checar exames, preencher a papelada da farmácia cidadã, solicitar exames, e explicar tudinho bem devagar para que elas possam entender.

Entre as tantas dificuldades e a luta contra o tempo, impostas pela própria doença e pelo sistema público (e privado) de saúde do país, é fácil se perder como profissional e como ser humano. Às vezes a consulta passa sem que tenhamos a chance de olhar nos olhos dessas mulheres e ouvirmos além das queixas principais. Atrás dos olhos, não existe mentira. Um minuto de atenção aos olhos molhados. É nessa hora que Paula confessa que não está tomando o medicamento, que Luzia vai às lágrimas porque perdeu o emprego e Maria conta sobre o marido violento. E nós entendemos os porquês das coisas estarem como estão. E nós entendemos que ali está uma paciente, esposa, mãe, filha, irmã, gente-como-a-gente.

Terminamos então nossa quarta-feira. Cansadas, felizes e realizadas, com o coração cheio de gratidão por poder proporcionar um ombro amigo e uma qualidade de atendimento digna a elas que merecem sempre muito, muito mais de nós.

 

*Minha homenagem à equipe HUCAM do ambulatório de Lúpus, hoje composta por mim, Ana Paula Gianórdoli e Valéria Valim e às nossas pacientes tão guerreiras e queridas.

** Nomes das pacientes foram trocados, mas as histórias são verdadeiras.

 

 

Dra. Lidia Balarini

Médica do ambulatório de lúpus eritematoso sistêmico do HUCAM

 


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